fotinho, motinho
Cláudio Moreno
Como o próprio nome já diz, esta coluna foi concebida para celebrar o prazer que podemos fruir no trato com as palavras. Os leitores que encontrarem reparos a fazer aos meus artigos podem ter certeza de que terão boa acolhida, pois aqui o riso é franco e a alma é leve; o estilo, normalmente alegre e zombeteiro, só fica ríspido e duro quando alguém me escreve para dizer desaforos - o que não é o caso deste leitor, que trocou alguns e-mails comigo sobre o diminutivo de moto e de foto. Depois das urbanidades de praxe, ele perguntou: "Professor, se temos tortinha e portinha, porque uma moto pequenina não é uma motinha? E por que uma foto pequena não pode ser fotinha?"
Ora, valiosíssimo leitor - escrevi -, a resposta é muito simples, mas pouco conhecida: embora a tradição gramatical considere "inho" e "zinho" como meras variantes do mesmo sufixo, hoje se sabe que são dois elementos completamente diferentes quanto à natureza e quanto ao comportamento. Plurais como cãezinhos ou azuizinhos, em que nitidamente se nota a ocorrência de duas flexões sucessivas (cães + zinhos, azuis + zinhos), indicam que o elemento "zinho”, apesar de ficar "encostado" ortograficamente, tem as mesmas propriedades de um vocábulo autônomo. Como se fosse um adjetivo, ele concorda em gênero e número com o vocábulo a que se liga: um hidratante - zinho, uma estante - zinha (não preciso dizer que esses hifens não existem no mundo real da ortografia; eles estão aí só para deixar mais evidente o limite entre os dois componentes). Cometa, apesar do A final, é masculino? Recebe "zinho": cometazinho. E tribo, apesar do O final, é feminino? Pois então recebe “zinha”: tribozinha. O elemento "inho", por sua vez, funciona como um verdadeiro sufixo, sem essa peculiar autonomia apresentada por "zinho". Solda-se permanentemente ao vocábulo primitivo e dele copia o A ou o O final, independentemente do gênero ser masculino ou feminino: um poema, um poeminha (mas poemazinho); um samba, um sambinha (mas um sambazinho); uma tribo, uma tribinho (mas, como vimos, uma tribozinha).
No Português, podemos contar nos dedos os vocábulos femininos que terminam em O: além de tribo, só temos a libido (um latinismo importado por via científica), virago (cujo gênero é discutível; Luft, por exemplo, considera masculino) e os dois vocábulos que o leitor mencionou, moto e foto, criados modernamente pela redução dos compostos eruditos motocicleta e fotografia. Se formarmos deles o diminutivo com “inho", vamos ter a moto, a motinho; a foto, a fotinho. E concluí: natural, meu amigo, que tenhas estranhado essas duas formas, dada a sua extraordinária raridade nos padrões do nosso vocabulário". Ponto final, e-mail enviado.
Não demorou muito e recebi outro e-mail do mesmo leitor, sugerindo, muito polidamente, que só insistia na dúvida porque tinha encontrado explicações diferentes da minha. "Se me permite", escreveu, "gostaria de discordar de motinho e fotinho. Para um professor que muito respeito, linguista e filólogo, que consultou a Academia Brasileira de Letras sobre o tema, o correto seria dizer e/ou escrever a motinha, a fotinha. O senhor concorda que temos aqui uma divergência de opiniões igualmente defensáveis e que, portanto, eu ficaria muito bem acompanhado qualquer que fosse a minha escolha?".
Vejam como nosso leitor, sem recorrer ao "achismo", foi consultar outras fontes e voltou, diplomaticamente, a realimentar a discussão. É evidente que, colocada assim nesses termos, a discordância sempre será bem-vinda. Quem me dera que todos fossem assim! É claro, no entanto, que não concordo com esse "linguista e filólogo", decerto um bom homem, um puro de coração que teve a ingenuidade de consultar a Academia e acreditar no que ela disse... Não se trata, aqui, de uma opinião minha sobre o que é certo ou errado; eu apenas descrevi a regra morfofonêmica da flexão dos diminutivos formados com “inho". Este sufixo, por uma espécie de ação espelhada, reproduz o marcador vocálico que encerrava o substantivo (O ou A), independentemente de ser masculino ou feminino: o poeta, o poetinha; a tribo, a tribinho; o mapa, o mapinha.
Claro que o povo, na linguagem viva e espontânea, pode desconsiderar esta regra, mas não vejo como filólogos e acadêmicos possam endossar formas como *a motinha e *a fotinha, sem aceitar, ipso facto, *o poetinho, *o mapinho, *a tribinha e quejandos. Como ficamos, então? É muito simples: em divergências como esta, o prudente é só tomar partido depois de consultar as fontes e observar quais são as autoridades que defendem uma ou outra posição. Portanto, amigo, lê, pesquisa, medita e escolhe. Eu já fiz isso, no caso da motinho e da fotinho, e firmei o meu ponto de vista.
Sábado, 9 de outubro de 2010.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.